Se você tem 30 anos ou mais, este texto é para você.

Vivemos uma fase da vida em que começamos a ver a fragilidade do envelhecer chegando, não exatamente em nós, mas nos nossos pais e também nossos avós (se você ainda tiver algum). Começa com uma dificuldade em ouvir, uma catarata prejudicando a visão, um diagnóstico de alguma doença mais grave... Eu sei que nossas intenções de cuidado gritam por tomar conta da vida deles, o famoso "tenho que educar meus pais".  Por isso resolvi escrever um pouco o meu olhar sobre isso, como filha e nutricionista de idosos.


O que eu, como nutricionista clínica, com 10 anos de atuação com adultos e idosos penso, reflito, faço e converso com meus pais?


1) Eu converso muito com eles sobre FUNCIONALIDADE, sobre como a alimentação, os exercícios, a socialização e os diagnósticos precoces são chave para que eles possam viver bem, fazendo as coisinhas que eles gostam de fazer e aproveitar a vida!

2) Eu participo das decisões de saúde, mas sem tirar a autonomia deles. Ajudo a escolher os profissionais de saúde, leio e interpreto para eles exames, acompanho quando necessário;

3) Deixo eles marcarem as consultas e fazerem a gestão da sua própria agenda de saúde. Posso ser suporte em lembrar que está na época, mas é importante que eles se façam os agendamentos por si;

4) Pratico exercícios com eles. Não sei se essa parte é um motivador para que eu mesma pratique exercício, mas é um tempo de muita qualidade e risadas que temos juntos;

5) Preservar autonomia: deixo que eles escolham padrões de refeições, não sou fiscal de ninguém, muito menos dos meus pais, certo? Lembrem que o item 1 eu converso com eles do que precisa ter, mas livre arbítrio ainda existe sim, talvez essa conversa não ser impositiva também abra espaço para que eles tomem decisões que façam mais sentido!

6) Conversamos sobre a finitude da vida. Conversar sobre o fim da vida e a morte, nos dá uma perspectiva de como cada um deles quer ser cuidado quando forem incapazes de advogar por si. Quando entendemos que cuidado é muito mais do que salvar vidas, o jogo muda, encontramos espaços para sermos vulneráveis, lidar com as dificuldades e tomar decisões juntos. Mais ou menos como criar um manual para o que vamos fazer quando a hora chegar...

7) Trago referências para eles, leituras, palestras, reflexões...Eles estão conectados mesmo, por que não destacar quem eu admiro?

8) Pergunto como se faz x ou y, não só sobre as coisas que eles são muito bons, mas sobre tudo. Essa troca é tão rica! Além de eu aprender coisas legais com uma maturidade diferente, também mantenho a devida e gigante impontância deles como meus pais;

9) Tiro de mim o peso de cuidar como profissional de saúde (voltamos um pouco ao item 2 para que isso seja possível). Mas isso tira de mim um peso grande e mantém mais tranquila para ser mais filha;

10) Reflito com alguma frequência se estou invadindo de mais o espaço deles de serem autônomos ou se estou sendo permissiva de mais. E tento ajustando a rota no caminho mesmo, a final, se a vida é uma coisa, ela é dinâmica e talvez amanhã eu mude qualquer um desses itens!